Desliguei o decodificador

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Não é necessário entender o que o outro está pensando. Existem coisas que simplesmente não foram feitas para gerar explicações, teses, concertos e conceitos. Entendi que talvez o melhor caminho seja abrir mão das tentativas de elucidação dos pensamentos e sentimentos alheios.

Quando eu era criança, minha mãe dizia que um colega dela de infância ficou maluco porque estudava demais e, conseqüentemente, queria entender tudo. A lembrança da voz aguda de Dona Bené - narrando passagens da sua infância em Santo Antonio de Jesus - acendeu um farol amarelo-alaranjado diante de mim. Compreendi a mensagem.
Quem tenta entender demais fica doido. Além disso, o amor próprio é tão grande...

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Sem paciência

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Sabe aquela regra matemática que assegura que mais com mais dá mais? No amor também é assim. Os pólos positivos entram em combustão quando juntos, sai lasca de fogo para tudo que é lado, um rendez- vous total.

Mas tudo que ela quer é ser recessiva de vez em quando, chorar, admitir incapacidade, mostrar-se fraca, impotente, abestalhada, fraca de fé, humana demasiadamente humana, pura e nua como veio ao mundo.

Todavia, isso só acontecerá se o pólo macho fizer uma brusca inflexão à direita. A daminha só quer ser puxada pela mão e ouvir, de vez em quando, cantiga de ninar, pois o bico que exibe não é de zanga. É de dengo.

Tem que ter muita paciência...

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O meu guri - Chico Buarque

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Quando, seu moço
Nasceu meu rebento
Não era o momento
Dele rebentar
Já foi nascendo
Com cara de fome
E eu não tinha nem nome
Prá lhe dar
Como fui levando
Não sei lhe explicar
Fui assim levando
Ele a me levar
E na sua meninice
Ele um dia me disse
Que chegava lá
Olha aí! Olha aí!

Olha aí!
Ai o meu guri, olha aí!
Olha aí!
É o meu guri e ele chega!

Chega suado
E veloz do batente
Traz sempre um presente
Prá me encabular
Tanta corrente de ouro
Seu moço!
Que haja pescoço
Prá enfiar
Me trouxe uma bolsa
Já com tudo dentro
Chave, caderneta
Terço e patuá
Um lenço e uma penca
De documentos
Prá finalmente
Eu me identificar
Olha aí!

Olha aí!
Ai o meu guri, olha aí!
Olha aí!
É o meu guri e ele chega!

Chega no morro
Com carregamento
Pulseira, cimento
Relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar
Cá no alto
Essa onda de assaltos
Tá um horror
Eu consolo ele
Ele me consola
Boto ele no colo
Prá ele me ninar
De repente acordo
Olho pro lado
E o danado já foi trabalhar
Olha aí!

Olha aí!
Ai o meu guri, olha aí!
Olha aí!
É o meu guri e ele chega!

Chega estampado
Manchete, retrato
Com venda nos olhos
Legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente
Seu moço!
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato
Acho que tá rindo
Acho que tá lindo
De papo pro ar
Desde o começo eu não disse
Seu moço!
Ele disse que chegava lá
Olha aí! Olha aí!

Olha aí!
Ai o meu guri, olha aí
Olha aí!
E o meu guri!...(3x)

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Faço questão de não ser entendido... Definitivamente

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A boa leitura é bem parecida com o ótimo sexo. Somos tomados por sucessivas sensações transloucas, por vezes insanas, espasmos pleonásticos incontroláveis e uma vontade louca de dominar e ser dominado.

Quando o enredo é bom, não temos vontade de parar. Não obstante a isso, seqüenciamos um capítulo atrás do outro, cada leitor no seu ritmo e estilo de juntar palavras. Uns preferem curtir as letras pela manhã cedo; outros na tardinha ou ainda no último momento antes de dormir.

Mas há também os iletrados: esses elementos deletérios não topam nunca juntar nacos de inhos e de nhãos. Preferem escrever e ler sozinhos, enclausurados em cela assombrada. Vai entender a cabeça de quem dorme no sereno. Mente de gente é terra que ninguém explora, nem colonizador high-tech portador de GPS.

Quando vencemos a última página do livro bom, aquela derradeira que olhamos logo quando pegamos o produto na prateleira, o prazer vem fumegante. A saudade vem em seguida, boa, densa e com gosto de quero mais. No ato posterior, o espírito do mais cético dos metafísicos se eleva. Quer mais, mais e mais. Anseia pelo próximo livro, afinal o prazer do desbravador reside no desafio de chegar aonde ninguém mais chegou.

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Comemorar com galhardia e refletir com a derrota

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Certo dia uma figura admirável, protagonista de muitas experiências, me disse que “ganha quem erra menos”. Refleti sobre isso como quem assimila o silêncio do outro. O grande ensinamento da frase em questão é a admissão de que todo mundo erra; só não erra quem não joga. E, daí, viver sem jogar é não justificar a própria existência e construir uma trajetória com honra genérica.

Quando se faz qualquer investimento, de cara os percentuais de vitória e derrota são os mesmos, cinqüenta por cento de parte a parte. Mas a possibilidade de se dar mal pode nos fazer abrir mão de entrar em disputas? Pode sim. No entanto, se assim o for caracterizam-se os grandes atos de covardia. Ora, ora... para visualizar os brancos peitos de Deus, é necessário, por muitas vezes, flertar com o demônio.

Além disso, como dizia o saudoso mestre Darcy Ribeiro, um dos últimos políticos românticos dos nossos tempos, há derrotas das quais devemos nos orgulhar, pelo simples fato de ter travado o bom combate, lutado com disciplina e, acima de tudo, por defender uma idéia considerável. Não se trata de aceitar a queda numa boa. Assim como a maioria das pessoas, odeio perder. Pois o bom mesmo é ganhar. Melhor ainda é poder aprender com a vitória e a derrota. Fazer de qualquer limão uma limonada.

Comemorar com galhardia e refletir com a derrota é saber viver. Vivamos!

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Tô quase odiando títulos

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Vou recomeçar a temporada de coisas boas. Hoje mesmo, como sem falta, entrarei no universo de Budapeste, de Chico Buarque. Quem sabe assim me venham idéias inspiradoras para colocar o mundo novamente nos eixos. Seria muito bom, né? Mas sabe de uma coisa... não sei se quero não. De vez em quando é tão bom ver as coisas de cabeça para baixo. No mínimo, tenho a oportunidade de enxergar sob um prisma incomum. E no mais, se tudo der certo, vou arrebentar a boca do balão. Tudo é aposta. Sou corajoso e kamikase suficientemente para tentar. Preciso justificar diariamente a minha existência. Assim o faço.

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Pedaços da alma

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O pior de tudo é não poder chorar. Sinto-me cansado de ser forte. De ter que sempre disfarçar com um falso sorriso sem brilho. Como bem disse o poeta santamarense, cada um é que sabe a dor e a delícia de ser o que é.

As dores profundas são somente minhas. Os sonhos mais nobres também. Poderiam ser de tantos. Cercado por tanta gente, mas sempre sozinho. A minha individualidade, que chega até a ser perversa, é sufocante. Logicamente, esgota-se em mim mesmo. Pior ainda: empurra-me ao abismo abissal da solidão de quem perde pouco-a-pouco pedaços da alma.

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O Filho Que Quero Ter

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Outra obra de arte de Chico Buarque. O Filho que Quero Ter é uma música terna, densa, como a força estranha de quem domina pela simplicidade. Segue a letra:


É comum a gente sonhar, eu sei
Quando vem o entardecer
Pois eu também dei de sonhar
Um sonho lindo de morrer.

Vejo um berço e nele eu me debruçar
Com o pranto a me correr.
E assim chorando acalentar
O filho que eu quero ter.

Dorme meu pequenininho,
Dorme que a noite já vem.
Teu pai está muito sozinho
De tanto amor que ele tem.

De repente o vejo se transformar
Num menino igual a mim
Que vem correndo me beijar,
Quando eu chegar lá de onde vim.

Um menino sempre a me perguntar
Um porquê que não tem fim.
Um filho a quem só queira bem
E a quem só diga que sim.

Dorme menino levado,
Dorme que a vida já vem.
Teu pai está muito cansado
De tanta dor que ele tem.

Quando a vida enfim me quiser levar
Pelo tanto que me deu
Sentir-lhe a barba me roçar
No derradeiro beijo seu.

E ao sentir também sua mão vedar
Meu olhar dos olhos seus
Ouvir-lhe a voz e me embalar
Num acalanto de adeus...

Dorme meu pai, sem cuidado.
Dorme que ao entardecer
Teu filho sonha acordado
Com o filho que ele quer ter...

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Geni e o Zepelim

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O ser humano é um ingrato por excelência. Chico Buarque escreveu uma música antológica sobre o tema. Um verdadeiro hino à ingratidão. Vale a pena conferir.


Composição: Chico Buarque

De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato
E também vai amiúde
Com os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir
Joga pedra na Geni
Joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni
Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim
Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo - Mudei de idéia
- Quando vi nesta cidade
- Tanto horror e iniqüidade
- Resolvi tudo explodir
- Mas posso evitar o drama
- Se aquela formosa dama
- Esta noite me servir
Essa dama era Geni
Mas não pode ser Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni
Mas de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro
Acontece que a donzela
- e isso era segredo dela
Também tinha seus caprichos
E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão
Vai com ele, vai Geni
Vai com ele, vai Geni
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni
Foram tantos os pedidos
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco
Ele fez tanta sujeira
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir
Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

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Se a Direita inova na comunicação, qual o papel da Esquerda no comando da máquina?

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Certamente, a geração que tem atualmente entre 25 e 35 anos de idade, ao ouvir - na adolescência - o lugar comum de que a juventude é a esperança de um futuro melhor, não considerava o seu papel estratégico na construção de instituições mais sólidas e eficientes. Cada vez é maior o número de debutantes balzaquianos com destaque na política.

Vi esses dias um exemplo emblemático. São Paulo, o estado mais rico e importante do país, tem um secretário com pouco mais de 30 anos de idade. Trata-se de Bruno Caetano, titular da pasta de Comunicação, que desbancou o todo-poderoso Hubert Alquéres, professor universitário e tido, até então, como um dos bambambãs do pedaço.

Um dos maiores destaques individuais do governo Serra, Caetano é cria (criatura) da juventude do PSDB, com participação no movimento estudantil e experiência em assessoria de vereadores e deputados estaduais. Em setembro de 2007, ele assumiu o cargo com a difícil tarefa de humanizar e tornar mais eficiente a comunicação da gestão tucana.

Suas primeiras medidas foram a regionalização da produção (pautas específicas para os veículos do interior), invadir, no sentido mais amplo da acepção, o universo da internet (foram criados perfis oficiais no twitter, orkut, facebook, flickr e my space) e, por fim, a avaliação das áreas estratégicas (saúde, educação, transportes e segurança) passou a ser realizada a cada quinze dias. Isso mesmo: o tucanato faz sondagens qualitativas duas vezes por mês.

Todos os meses os mais de um milhão de servidores públicos paulistas recebem confortavelmente em casa uma revista, com muitas fotos e somente informações essenciais, sobre as ações de Serra. Todas as propagandas, antes de serem veiculadas no rádio, tevê, outdoor e internet são apresentadas aos funcionários do órgão que cuida da ação/programa relacionada a campanha publicitária. O nome disso é endomarketing. Basicamente, consiste em oferecer aos servidores subsídios para que eles conheçam e, a partir disso, defendam os produtos e a instituição onde cumprem obrigações funcionais.

O trabalho executado por Bruno Caetano tem dados bons resultados, haja visto que a avaliação positiva do governo tem melhorado bastante. E os bons resultados estão desatrelados do aumento excessivo dos gastos em publicidade, que consomem atualmente 0,16% da arrecadação total. Um número considerado médio. O fato é que ter bons projetos faz a diferença. Só para ter idéia, quem mais gasta com propaganda (0,65% da soma total de divisas), dentre todas as unidades federativas do país, é o Amazonas.

Este texto não é um brinde às incursões peessedebistas e muito menos ao gestor da Comunicação oficial do Governo de São Paulo. Bruno Caetano é, aqui, apenas uma metáfora para mostrar que, em muitas áreas, a Esquerda, que por DNA deveria ser revolucionária, é conservadora. Não experimenta o novo e concentra esforços em táticas e figuras ultrapassadas. Prefere, às vezes, em detrimento ao pioneirismo, o bom e velho currículo recheado.

Enquanto isso, a Direita, em posição paradoxal, tem peito de experimentar e bancar um quadro jovem em uma área estratégica como é a comunicação social. Isso é, para mim, a moral da história das linhas rabiscadas acima. Se a direita inova e revoluciona administrativamente, o que resta então para esquerda empreender? A questão merece uma reflexão séria e profunda, porque, mais do que gerir de forma eficaz a máquina pública, é fundamental revelar e qualificar quadros, protagonistas e pontas de lança de projetos técnicos-políticos. (GH)

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